Nem chiclete, nem perfume. Quem avalia cachaça para o concurso estadual de qualidade segue regras rígidas para não atrapalhar o olfato e o paladar na hora de provar os rótulos. A recomendação valeu para os 20 jurados que avaliaram mais de 140 amostras nos dias 22 e 23 de outubro, na sede da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (SAA), na capital paulista.
A avaliação faz parte do III Concurso Estadual de Qualidade da Cachaça Paulista. Todas as amostras têm registro no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), o que garante que os produtores estão regularizados junto ao órgão federal. A cerimônia de premiação está marcada para dezembro deste ano, mas a data ainda não foi detalhada pela organização.
Os jurados provaram as cachaças sem saber a marca de cada amostra, identificada apenas por códigos. O objetivo é evitar qualquer influência na análise. O processo segue quatro etapas: visual, olfativa, gustativa e impressão final.
Jairo Martins, referência em análise sensorial de cachaça e jurado desde a primeira edição do concurso, começou a estudar o destilado em 1987 e hoje é autor de livros e palestrante internacional sobre o tema. Segundo ele, os jurados observam limpidez, brilho, cor, intensidade, acidez, qualidade e harmonia da bebida. O processo de produção, principalmente os cuidados com higiene, também pesa na nota final.
Antes de chegar à etapa de degustação, as cachaças passam por conferência de documentação e laudos de análise química, que atestam se cada rótulo cumpre os padrões legais de qualidade. Quem explica esse filtro anterior é Elisângela Jerônimo, coordenadora do Grupo de Estudos da Cadeia da Cachaça de Alambique (GECCA) e pesquisadora da APTA Regional de Bauru. Segundo ela, o julgamento sensorial só acontece depois dessa triagem documental, justamente para garantir que apenas produtos regulares cheguem à mesa dos jurados.
O concurso divide os rótulos em sete categorias: branca, armazenada, envelhecida em carvalho, premium, extra premium, madeiras brasileiras e blend. As classificações levam em conta tempo de envelhecimento, tipo de madeira usada no armazenamento e combinações entre cachaças diferentes.
Participaram da avaliação deste ano a jornalista e sommelier de cachaça Amarillis D'Angelo, fundadora do perfil Drink Comigo no Instagram, em sua segunda passagem como jurada, e a influenciadora Cinthia Miotto, do canal Garota do Drink, que estreou no júri nesta edição. Nas duas primeiras edições do concurso, em 2024 e 2025, mais de 200 rótulos foram avaliados ao todo.
São Paulo é o segundo estado brasileiro em número de produtores de cachaça, com 230 estabelecimentos e 1.185 cachaças registradas, segundo o Anuário da Cachaça 2026. As Rotas da Cachaça de São Paulo reúnem mais de 80 produtores em 65 municípios do estado. A região do Circuito das Águas recebeu a primeira Indicação Geográfica (IG) concedida a uma cachaça paulista, reconhecimento que valoriza a origem territorial da bebida e os métodos de produção locais.
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