Febre que some e volta, perda de peso sem explicação e queda nas células do sangue. Esses sinais, que levam médicos a suspeitar de doenças graves da medula óssea, também podem ser causados por uma infecção bem mais comum em algumas regiões do Brasil: a leishmaniose visceral. É o que mostra um relato de caso publicado na revista científica Discover Medicine por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
O estudo descreve o atendimento de um paciente de 86 anos, do Rio Grande do Norte, estado onde a doença é endêmica, ou seja, circula com frequência na população. Ele chegou ao hospital com sintomas parecidos aos de uma leucemia aguda e, nos primeiros exames, os médicos chegaram a suspeitar de síndrome mielodisplásica, um grupo de doenças que faz a medula óssea produzir células do sangue de forma anormal.
O ponto que mais chamou atenção dos pesquisadores foi o resultado do teste rK39, exame rápido usado para identificar anticorpos contra o parasita Leishmania infantum, causador da forma visceral da doença. No paciente, o resultado veio negativo, mesmo com a infecção presente no organismo.
Segundo Ian Antunes, doutorando do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e primeiro autor do artigo, isso acontece porque, quando a medula óssea está comprometida, a produção de anticorpos cai, o que reduz a sensibilidade do teste rápido e pode mascarar a infecção. "A produção de anticorpos pode estar reduzida, o que diminui a sensibilidade do teste e faz com que a infecção passe despercebida", afirma o pesquisador.
Como a suspeita não foi descartada, já que a região é endêmica, a equipe médica coletou uma amostra da medula óssea do paciente. A análise por microscopia revelou uma quantidade grande de formas amastigotas, estágio do parasita que vive dentro das células, segundo Sandra Márcia Muxel, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP e orientadora da pesquisa. A confirmação veio depois, por meio de um exame de biologia molecular chamado PCR, considerado o método mais preciso para identificar o parasita no organismo.
A investigação revelou um quadro mais raro do que o esperado: o paciente tinha, ao mesmo tempo, a síndrome mielodisplásica e a leishmaniose visceral, duas condições que comprometem a medula óssea e podem produzir sintomas parecidos, como anemia e queda nos glóbulos brancos e nas plaquetas.
O caso evoluiu rapidamente. Com um quadro grave e recusa a transfusões de sangue por motivos religiosos, o paciente não chegou a receber o tratamento completo contra a leishmaniose e morreu durante a internação, segundo os pesquisadores.
"A leishmaniose é uma doença que, se não for tratada, é fatal. Um diagnóstico correto é essencial para iniciar o tratamento mais rapidamente", afirma Sandra Muxel. O Brasil concentra o maior número de casos de leishmaniose visceral das Américas, e a transmissão ocorre pela picada do mosquito-palha infectado. Com a publicação do caso, os pesquisadores esperam que médicos considerem a possibilidade da infecção mesmo quando os primeiros exames apontam para outro diagnóstico, especialmente em áreas onde a doença é frequente.
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