USP testa óculos de realidade virtual para detectar Alzheimer

Pesquisa em São Carlos cruza rastreamento do olhar e ondas cerebrais para flagrar sinais de declínio cognitivo antes dos testes tradicionais

Por
Foto: ICMC-USP/Assessoria de Imprensa
Foto: ICMC-USP/Assessoria de Imprensa

Quem tem mais de 65 anos e passa hoje pelos tradicionais testes de papel e caneta para avaliar a memória pode, no futuro, ser avaliado de um jeito bem diferente: usando óculos de realidade virtual enquanto sensores medem a atividade elétrica do cérebro e o movimento dos olhos. É essa a proposta de um sistema em desenvolvimento no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP), em São Carlos, no interior paulista.

A ferramenta tem um objetivo direto: flagrar mais cedo o comprometimento cognitivo leve, um estágio intermediário entre o esquecimento natural do envelhecimento e o início de quadros de demência, como a doença de Alzheimer. Segundo estimativas citadas pelos pesquisadores, entre 15% e 20% das pessoas acima de 65 anos têm esse tipo de comprometimento, e metade delas pode evoluir para demência em até cinco anos.

Como funciona o teste

Na prática, o paciente participa de uma única sessão de avaliação. Ele usa um equipamento de realidade virtual que simula tarefas do dia a dia, enquanto um eletroencefalograma registra sua atividade cerebral e um sistema de rastreamento ocular acompanha para onde e por quanto tempo seus olhos se fixam em cada estímulo.

Esses dados revelam informações que um teste de papel não capta: o tempo de fixação do olhar indica o nível de atenção da pessoa, e as oscilações das ondas cerebrais mostram o esforço que o cérebro faz para acionar a memória operacional. Tudo isso é processado por algoritmos de inteligência artificial, que cruzam as informações em tempo real.

O projeto é conduzido por Roberto Douglas Guimarães de Aquino, em pesquisa de pós-doutorado supervisionada pelo professor Alexandre Delbem, coordenador do Centro para Inteligência Artificial em Gestão de Saúde (ciaGsaúde), ligado ao ICMC. A iniciativa também envolve o Centro de Engenharia Aplicada à Saúde, da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC-USP), e é financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Diferença em relação aos exames atuais

Segundo Aquino, os testes hoje usados na prática clínica, como o Miniexame do Estado Mental e o Montreal Cognitive Assessment (MoCA), têm limitações: dependem de interpretação subjetiva do avaliador, sofrem influência do nível de escolaridade e do contexto sociocultural do paciente e têm baixa sensibilidade para captar os sinais mais leves de comprometimento. A proposta da equipe é medir reações biológicas do cérebro em milissegundos, em vez de depender apenas de respostas verbais ou escritas.

O relatório gerado pelo sistema não se limita a dizer se há ou não comprometimento cognitivo. De acordo com o pesquisador, o algoritmo foi desenhado para explicar os motivos de cada resultado, servindo como apoio à decisão do médico neurologista, e não como substituto dele. A pesquisa segue critérios éticos que incluem participação de grupos clínicos e de voluntários saudáveis, pareados por idade e escolaridade, com dados armazenados de forma anônima.

O grupo pretende, no futuro, usar os achados para orientar terapias de neurorreabilitação cognitiva e motora personalizadas, o que poderia reduzir a necessidade de medicação em alguns casos. Após a conclusão das validações clínicas, os pesquisadores planejam disponibilizar gratuitamente o software, os algoritmos e os bancos de dados anonimizados em código aberto na plataforma GitHub, para que outros cientistas possam usar e testar a metodologia.

Leia também: Esquecimento na menopausa não é sinal de Alzheimer, diz USP


Tags »
Notícias Relacionadas »