O vírus da zika, responsável por causar microcefalia em bebês durante a epidemia que atingiu o Brasil na década passada, pode se tornar no futuro uma ferramenta para tratar tumores causados pela neurofibromatose tipo 1 (NF1), doença genética que afeta cerca de uma em cada 2.600 pessoas no mundo. A descoberta é de pesquisadores do Centro de Estudos do Genoma Humano (CEGH) da Universidade de São Paulo (USP) e foi publicada na revista científica Molecular Therapy: Oncology, do grupo Cell.
A NF1, também chamada de doença de Von Recklinghausen, costuma aparecer na infância. Na maioria dos casos não causa sintomas graves, apenas manchas na pele conhecidas como "café com leite" e nódulos benignos sob a pele, ao longo dos nervos periféricos, chamados neurofibromas. O problema surge quando esses tumores se tornam malignos ou causam deformidades.
A pesquisa nasceu de estudos anteriores do mesmo grupo da USP, que já haviam demonstrado que o zika vírus destrói tumores do sistema nervoso central em camundongos e também em cães com tumores cerebrais espontâneos. A partir desses resultados, os cientistas quiseram verificar se o vírus teria o mesmo efeito sobre os neurofibromas, tumores que atingem os nervos periféricos.
"Já que o zika vírus destrói tumores do SNC, a nossa próxima pergunta foi: será que ele também destruiria neurofibromas, tumores dos nervos periféricos, causados na maioria por mutações no gene da neurofibromatose, o NF1?", explica Mayana Zatz, geneticista e diretora de inovação do CEGH-USP.
Para testar a hipótese, a equipe infectou linhagens de neurofibromas com o vírus da zika em laboratório. O passo seguinte da pesquisa será identificar quais tipos de tumores respondem melhor ao tratamento e quais mecanismos biológicos explicam essa diferença de resposta entre os casos.
Segundo Zatz, o estudo é um exemplo de como a pesquisa básica, motivada inicialmente pela curiosidade sobre por que o zika vírus causava microcefalia em fetos durante a gestação, pode se transformar em uma nova alternativa terapêutica. A expectativa do grupo é que o avanço beneficie no futuro pacientes com tumores cerebrais e também com tumores periféricos ligados à NF1.
O estudo ainda está em fase experimental, sem previsão de testes em humanos. A pesquisa integra a coluna Decodificando o DNA, apresentada por Mayana Zatz quinzenalmente às quintas-feiras, às 9h, na Rádio USP, que transmite em São Paulo na frequência 93,7 e em Ribeirão Preto na 107,9.
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