Toda vez que o resultado de uma eleição se distancia do que mostravam as pesquisas, surge a mesma frase: a pesquisa errou. Mas pesquisadores da Universidade de São Paulo apontam que essa leitura costuma partir de uma confusão sobre o que uma pesquisa eleitoral se propõe a fazer.
Segundo a análise da USP, uma pesquisa de intenção de voto não é uma previsão do resultado da eleição. Ela mede as preferências dos eleitores no momento exato em que os dados são coletados, como uma fotografia de um cenário que segue em movimento até o dia da votação.
Isso explica por que um levantamento feito duas semanas antes do pleito pode não corresponder ao resultado nas urnas. No intervalo entre a coleta e a votação, eleitores indecisos se definem, fatos de campanha mudam opiniões e parte de quem dizia que votaria acaba não comparecendo.
Como nenhuma pesquisa entrevista todos os eleitores, os institutos trabalham com amostras e usam a margem de erro para dimensionar a incerteza estatística do levantamento. Mas, de acordo com os pesquisadores da USP, esse número não esgota as fontes de imprecisão de uma pesquisa.
Entram nessa conta a dificuldade de alcançar determinados grupos de eleitores, a forma como as perguntas são formuladas e a tentativa de estimar quem efetivamente vai às urnas. Por isso, a recomendação é não tratar uma única pesquisa como retrato definitivo da realidade, e sim acompanhar várias pesquisas ao longo do tempo.
É nesse ponto que entram os agregadores de pesquisas, ferramentas que combinam diferentes levantamentos para chegar a uma estimativa mais estável da opinião pública. O cálculo não é uma simples média aritmética: pesquisas mais recentes, com amostras maiores, recebem peso maior do que pesquisas antigas ou de institutos com metodologias menos consistentes.
Já os modelos de previsão eleitoral partem de uma pergunta diferente da pesquisa: não buscam retratar a disputa no momento atual, mas estimar o resultado possível no dia da eleição. Para isso, combinam pesquisas com outras variáveis, como resultados eleitorais anteriores, situação econômica e presença de candidatos no governo.
Segundo a USP, não existe um conjunto de variáveis universal capaz de prever eleições em qualquer país, já que fatores que funcionam em um sistema político podem não se repetir em outro contexto. Mudanças no quadro partidário, surgimento de novos candidatos, crises e fatos inesperados podem reduzir a utilidade de padrões observados em eleições passadas. Por isso, os modelos mais robustos não apresentam um número fechado como resultado esperado, mas uma distribuição de cenários possíveis.
Fonte: Universidade de São Paulo.